O Domingo da Santa Expectação

A Igreja nos coloca hoje num intervalo estranho e santo. Nosso Senhor ascendeu. A vela pascal foi extinta. A presença visível de Cristo se retirou dos olhos dos homens. Mas Pentecostes ainda não chegou. Estamos, por assim dizer, no Cenáculo com os Apóstolos e a Bem-aventurada Virgem, não abandonados, não triunfantes em sentido algum do mundo, mas esperando.

Por isso o Introito clama com uma insistência tão terna: "Ouve, Senhor, a minha voz… Busco a Tua face, ó Senhor." A Igreja não fala aqui como uma viúva que perdeu seu Esposo para sempre. Fala como uma noiva que sabe que Ele subiu ao seu Pai e nosso Pai, ao seu Deus e nosso Deus, e que espera pelo fogo prometido do céu.

Goffine, em sua antiga instrução para este Domingo, diz claramente que toda esta semana deve ser usada como uma preparação para Pentecostes, para que por boas obras e exercícios piedosos recebamos os dons do Espírito Santo. Ele aponta exatamente o que São Pedro nos oferece na Epístola: oração, caridade, o uso fiel da graça e os deveres do nosso estado de vida.

Cristo Ascendido, Mas Cristo Permanece

Não imaginem que a Ascensão seja uma ausência no sentido ordinário. Santo Agostinho diz que Nosso Senhor "não se retirou de nós quando subiu novamente aos céus." Ele está no céu pela sua humanidade glorificada, mas permanece conosco pela sua divindade, seu poder e seu amor. Não podemos estar no céu como Ele está na terra, pela natureza divina; mas nEle, pela fé, esperança e caridade, nossos corações podem já ascender.

Por isso um cristão nunca deve viver como se a terra fosse seu país final. O mundo vos diz para vos estabelecerdes aqui, para fazerdes paz com a vaidade, para arranjardes vossa consciência segundo o conforto, para serdes agradáveis ao erro, para tornarem a religião útil mas nunca soberana. A Ascensão rasgou essa ilusão. Vossa Cabeça está no céu. Devem os membros rastejar contententemente na poeira?

Não. Se Cristo nossa Cabeça ascendeu, então a vida cristã deve ser uma ascensão. Nossos pensamentos devem ascender. Nossos desejos devem ascender. Nossas casas devem ascender. Nosso trabalho, nossos sofrimentos, nossas amizades, nossa fala, nossa própria recreação devem ser elevados ao serviço de Deus. "O Senhor é minha luz e minha salvação; a quem hei de temer?"

"Sede Prudentes e Vigilantes nas Orações"

São Pedro começa hoje com uma advertência: "Sede prudentes e vigilantes nas orações." Escreve como um homem que sabe que o fim de todas as coisas está próximo, não necessariamente próximo pelos nossos calendários, mas sempre próximo à alma que pode ser chamada esta noite ante o Tribunal de Deus.

A oração é a respiração da alma. Um homem que não ora já está começando a morrer interiormente, embora ainda possa falar, trabalhar, rir e prosperar. Uma família que não ora está deixando suas janelas abertas à noite enquanto o inimigo ronda lá fora.

Mas São Pedro não diz apenas: "Orai." Diz sede prudentes e vigilantes. Isto é, orai como homens que conhecem sua fraqueza, como soldados de guarda, como servos cujo Senhor pode retornar a qualquer hora. Orai contra os pecados que mais comumente vos conquistam. Orai contra vosso temperamento. Orai contra a impureza. Orai contra o respeito humano. Orai contra o desânimo. Orai contra esse orgulho sutil que permite a um homem confessar toda doutrina da Fé enquanto recusa curvar sua própria vontade diante de Deus.

O Papa Leão XIII, escrevendo sobre o Espírito Santo em Divinum Illud Munus, ensinou que cada um de nós necessita grandemente de sua proteção e ajuda, e que quanto mais um homem é fraco, perturbado, propenso ao pecado ou carente de sabedoria, mais deve voar para o Espírito Santo, "a fonte incessante de luz, força, consolação e santidade."

A Caridade Cobre uma Multidão de Pecados

Depois vem o mandamento que penetra através de tanta falsa piedade: "Acima de tudo, tende entre vós uma caridade constante: porque a caridade cobre uma multidão de pecados."

Marcai bem isto. São Pedro coloca a caridade acima de todas as coisas.

A caridade não é fraqueza sentimental ou covardia diante do mal. A caridade é o amor de Deus derramado no coração e depois voltado para o próximo pelo sake de Deus. A caridade diz a verdade, corrige, sofre, perdoa. A caridade recusa fazer um trono para o próprio orgulho ferido.

O antigo comentário católico de Haydock explica que a caridade cobre uma multidão de pecados tanto porque é um grande meio de expiação por eles quanto porque uma mente caridosa desculpa muitas faltas nos outros.

Isto é desesperadamente prático. Em cada paróquia, cada família, cada local de trabalho, cada círculo de católicos, há pequenos ressentimentos guardados como relíquias. Há silêncios frios alimentados há anos. Há suspeitas, ciúmes, antigas injúrias e desfeitas lembradas. E então as mesmas almas se ajoelham e pedem ao Espírito Santo.

Mas o Espírito Santo é o Espírito da caridade. Não é atraído para a alma que mantém uma capela privada para a amargura. Se desejais preparar-vos para Pentecostes, perdoai. Façam paz. Deixem de repetir o que não precisa ser repetido. Cobri o que a caridade vos permite cobrir. Corrigi apenas o que o dever vos exige corrigir. Falai como quem há de dar conta de toda palavra ociosa.

A Mordomia da Graça

São Pedro continua: "Cada um, conforme o dom que recebeu, sirva aos outros como bom administrador da variada graça de Deus."

Nenhum católico é inútil ou dispensado do serviço. A mãe com filhos, o pai em seu banquinho ou escrivaninha, o estudante, a viúva idosa, o sacerdote, a religiosa, o homem doente na cama, a criança aprendendo seu catecismo — cada um recebeu algo. Cada um deve devolvê-lo a Deus com juros.

Alguns recebem a fala. Então falem "com palavras de Deus." Isto significa sem mentira, sem adulação, sem impureza, sem crueldade inútil, sem silêncio covarde quando o dever exige testemunho.

Alguns recebem força. Então ministrem "pela força que Deus fornece." Isto significa sem vaidade. Sem auto-propaganda. Sem fingir que o que a graça forneceu foi fabricado por nossa própria grandeza.

O cristão não é dono de seus dons. Ele os mantém em depósito. Vossa inteligência não é vossa. Vossa influência não é vossa. Vosso dinheiro não é vosso. Vosso tempo não é vosso. Vossos filhos não são vossos absolutamente. Vosso corpo não é vosso para o pecado. Tudo foi recebido. Tudo deve ser restituído.

"Vós Também Dareis Testemunho"

No Evangelho, Nosso Senhor diz: "Quando viesse o Consolador… Ele dará testemunho de Mim. E vós também dareis testemunho."

Esta é a ordem. Primeiro o Espírito Santo dá testemunho. Depois os Apóstolos dão testemunho. A Igreja não é construída sobre entusiasmo humano. Ela não é uma sociedade de debate, um clube de melhoria moral ou um encontro de homens que admiram Cristo como um mestre nobre. Ela é animada pelo Espírito da Verdade.

Pio XII ensinou em Mystici Corporis que a Igreja primeiro se mostrou diante dos homens no Pentecostes, quando Cristo enviou o Espírito Santo como Paráclito sobre seus discípulos. Ele também repetiu o grande ensinamento de que como Cristo é Cabeça da Igreja, o Espírito Santo é sua alma.

Portanto, se desejais dar testemunho, deveis primeiro receber. Não tenteis falar por Cristo enquanto viveis separados de Cristo ou tenteis defender a Fé enquanto negligenciastes a confissão, oração, Missa e os deveres do vosso estado. A língua pode falar palavras católicas enquanto a vida dá testemunho pagão.

O testemunho que Nosso Senhor pede não é mera conversa. É fidelidade sob pressão, paciência nas cruzes, modéstia quando outros ridicularizam a pureza, reverência quando outros se tornam casuais, e doutrina sem constrangimento. É o Sinal da Cruz feito sem vergonha, o pai que lidera sua família na oração, a mãe que forma almas para o céu, o jovem que recusa a impureza e a jovem que recusa a vaidade. É o trabalhador que recusa a desonestidade e o católico que preferiria perder conforto do que perder graça.

O Aviso Contra o Escândalo

Então Nosso Senhor dá a misericórdia severa de um aviso: "Isto vos tenho dito, para que não vos escandalizeis."

Um escândalo não é meramente algo chocante. No sentido evangélico, escândalo é uma pedra de tropeço, algo que causa a queda de uma alma. Nosso Senhor avisa seus Apóstolos porque sabe o que perseguição, traição, falsa religião e violência podem fazer a homens que esperavam um triunfo fácil.

Santo Tomás de Aquino, na Catena Aurea, preserva a explicação de Santo Agostinho: depois de prometer o Espírito Santo, Cristo os avisa dos sofrimentos para que não sejam ofendidos. O amor de Deus, derramado no coração pelo Espírito Santo, dá grande paz aos que amam a lei de Deus.

Esta é uma lição que muitos católicos nunca aprendem. Pensam que paz significa ausência de conflito. Cristo ensina o contrário. Paz não é a garantia de que os inimigos desaparecerão. Paz é a graça de não ser derrubado quando os inimigos vêm.

Nosso Senhor não diz: "Sereis admirados por todos os homens." Ele diz: "Vos expulsarão das sinagogas." Não diz: "O mundo entenderá vossas intenções." Ele diz: "Vem a hora em que todo aquele que vos matar cuidará estar prestando culto a Deus."

O zelo falso é uma das coisas mais assustadoras da religião. Homens podem perseguir a verdade enquanto se imaginam defensores de Deus. Homens podem destruir os servos de Cristo enquanto pensam estar purificando o templo. Santo Agostinho, novamente através da Catena Aurea, diz que Nosso Senhor lhes disse tudo de antemão porque as provações, quando vêm sobre homens desprevenidos, são avassaladoras.

O Católico Não Deve Ser um Órfão

O Aleluia nos dá a promessa de Nosso Senhor: "Não vos deixarei órfãos; vou e venho a vós, e o vosso coração se alegrará."

Aí está todo o mistério deste Domingo. Ele vai, e Ele vem. Ele está oculto, e Ele está presente. Ele ascende, e Ele envia. O mundo vê ausência. A fé conhece presença.

O espírito órfão é uma das grandes tentações dos cristãos. Sussurra: Estás sozinho. Deus te esqueceu. A Igreja é fraca demais. Os ímpios são demasiado fortes. Tuas orações desaparecem no ar. Teus pecados são demasiados. Tuas cruzes são inúteis. Tua pequena fidelidade é invisível.

Rejeitai essa voz. Não é a voz do Paráclito.

O Espírito Santo é chamado Paráclito porque consola, fortalece, intercede e fica ao lado da alma. Goffine diz que Ele tornou os Apóstolos eloquentes e corajosos, de modo que professaram e pregaram Cristo intrepidamente, confirmando sua doutrina por milagres e selando-a com seu sangue.

O mesmo Espírito Santo deve nos tornar corajosos. Talvez não para o martírio pela espada. Talvez para o martírio mais tranquilo da perseverança: uma fidelidade longa, um sacrifício oculto, uma enfermidade suportada sem rebelião, uma tentação resistida vez após vez, um dever cumprido sem aplausos.

Como Passar Esta Semana Antes do Pentecostes

A Igreja nos dá este Domingo para preparação.

Goffine oferece o velho programa católico. Retirai-vos um pouco do ruído. Falai menos. Orai mais fervorosamente. Purifiquem a consciência por uma confissão arrependida. Reconciliem-se com o próximo. Deem esmola segundo vossas posses. Desejem fervorosamente receber o Espírito Santo.

Façam uma boa confissão se necessário. Terminem uma discussão. Evitem uma ocasião de pecado. Abandonem um mau livro, um mau hábito, uma má companhia, uma má curiosidade. Rezem o Veni Creator Spiritus ou Vinde Espírito Santo cada dia. Peçam pelos sete dons. Peçam especialmente pela fortaleza, porque católicos fracos não se tornam santos. Peçam pelo temor do Senhor, porque católicos casuais não se tornam santos também. Peçam pela sabedoria, porque esperteza sem santidade apenas dá ao pecado um vocabulário melhor.

O Papa Leão XIII ordenou a Novena anual antes do Pentecostes em toda a Igreja Católica e lhe anexou indulgências, exortando os fiéis a invocarem o Espírito Santo com devoção especial nestes dias.

O Segredo Eucarístico de São Pascoal

Hoje, embora o Domingo tenha precedência, o calendário também se lembra de São Pascoal Baylon, o humilde irmão leigo franciscano cuja festa cai em 17 de maio. O Papa Leão XIII o declarou padroeiro celestial dos Congressos Eucarísticos e Associações, e a tradição católica o recorda como um santo de devoção ardente ao Santíssimo Sacramento.

Isto não é acaso de piedade. A alma que espera pelo Espírito Santo deve permanecer perto do tabernáculo. Os Apóstolos esperaram no Cenáculo. Nós esperamos diante do altar. Nosso Senhor ascendeu aos céus, mas não deixou de habitar entre nós sob os véus eucarísticos.

A Hóstia é a resposta ao espírito órfão. O tabernáculo é a contradição tranquila do desespero. A Missa é o sacrifício do Calvário tornado presente até o fim dos tempos. Aqui está Cristo oculto, Cristo oferecido, Cristo recebido, Cristo adorado.

Se quereis Pentecostes, não negligencieis a Eucaristia. Se quereis coragem, recebei dignamente. Se quereis pureza, adorai. Se quereis caridade, ajoelhai-vos diante da Sagrada Hóstia e pedi ao Coração de Jesus que queime o frio do vosso próprio.

"Para Que em Tudo Seja Honrado Deus"

São Pedro termina a Epístola com o propósito de tudo: "para que em tudo Deus seja honrado por Jesus Cristo nosso Senhor."

Para que Deus seja honrado.

Este é o fim da Ascensão. Este é o fim do Pentecostes. Este é o fim da Igreja, da Missa, dos sacramentos, do sacerdócio, da família, da vida cristã e de cada respiração do vosso corpo.

Assim levantai vossos corações. Buscai sua face. Não vos escandalizeis. Não vivais como órfãos. Orai com vigilância. Amai com constância. Servi como mordomos. Testemunhai sem vergonha. Esperai o Espírito Santo com a Bem-aventurada Virgem no Cenáculo da Igreja.

E quando o mundo se torna barulhento, quando falso zelo surge, quando a caridade esfria, quando a face de Cristo parece oculta, respondei com o Introito da Missa de hoje:

"Tua face, ó Senhor, eu busco. Não escondas tua face de mim."

Vinde, Espírito Santo. Enchei os corações de vossos fiéis. Acendei neles o fogo de vosso amor. Amém.