Informações pessoais
Breve biografia
Senhor reverendo, antes de falarmos sobre os acontecimentos atuais: poderia fornecer aos nossos leitores alguns detalhes sobre o seu percurso pessoal? Quem é o senhor, de onde veio e o que o levou ao sacerdócio?
O senhor provém de uma família nobre, concluiu um doutoramento e ensinou numa universidade. Como é que estas experiências tão diversificadas influenciaram a sua ideia de sacerdócio?
Provém do que poderia designar como uma típica família austríaca, cujas raízes mergulham em Viena e na Boémia. Porém, sou o único membro da minha família que nasceu na Baviera, onde vivo novamente.
A família, que é muito extensa, pertence à pequena nobreza e recebeu o seu título no século XVIII. Em tempos, os Heimerl possuiu uma riqueza considerável, incluindo minas de prata e vastas propriedades na Hungria e na Boémia, que, naturalmente, se perderam ao longo da história. O que resta é o antigo palácio de verão da família, próximo de Viena, que um dos meus antepassados mandou restaurar em estilo barroco. Na realidade, há muito que mudou de mãos e agora pertence ao Estado.
O que conseguimos preservar foi a fé católica e princípios claros; entre estes, conta-se uma certa alma combativa. Creio tê-la herdado dos meus antepassados. Entre eles contavam-se oficiais e até um ministro do imperador, sucessor do famoso condeAndrássy. Tanto quanto sei, a Haymerlegasseem Viena deve o seu nome a este primo afastado.
A família divide-se numa linhagem baronal e noutra cavaleiresca. No entanto, ao contrário dos meus primos alemães, a minha linhagem — rigorosamente falando — perdeu o título nobre devido às leis austríacas da nobreza. O meu bisavô costumava dizer, com um brilho nos olhos: «Se o Imperador o tolera, também nós o toleramos». Hoje, naturalmente, já não constitui um problema.
Curiosamente, o meu trisavô da sexta geração obteve o título de nobre por serviços prestados à Ópera Imperial da Corte. Segundo parece, herdei também da família Heimerl von Heimthal o grande amor pela ópera.
No meu caso, esta inclinação familiar pela arte levou-me, em última análise, a estudar literatura e história alemãs, concluindo um doutoramento sobre Goethe. Tenho publicado muito nesta área, contudo, esses tempos já passaram há muito.
Que seria sacerdote tornou-se-me claro ainda na juventude e, após muitos desvios, esta vocação concretizou-se em Viena, a cidade dos meus pais.
Por outro lado, a minha carreira académica é já um pálido reflexo num passado longínquo; hoje parece-me quase outra vida completamente diferente.
Para resumir: Deus guiou-me ao longo de toda a minha vida e tenho a certeza de que continuará a fazê-lo. Confio n’Ele e na intercessão da sua Mãe Santíssima.
Recentementee, durante uma grave crise de saúde, fiz uma peregrinação a Altötting com um amigo. A Bem-Aventurada Virgem atendeu à minha prece de forma impressionante. Tenho tido experiências semelhantes vezes sem conta e sou profundamente grato pela divina Providência por isso.
A escrita como missão sacerdotal.
Com as suas publicações atinge já um público vasto para lá das fronteiras da área de língua alemã. Os seus textos são publicados tanto em Itália como nos Estados Unidos. Como chegou à escrita? Considera a sua atividade como jornalista uma paixão pessoal ou parte da sua missão sacerdotal?
Como germanista que sou, publiquei sempre, naturalmente, e com um certo êxito. Todavia, quando me tornei sacerdote, de modo nenhum tencionava voltar a escrever, e muito menos sobre temas relacionados com a Igreja.
Lembro-me de uma conversa com o Cardeal Schönborn na qual lhe disse precisamente isto e pedi-lhe para me atribuir a tarefa de cuidar pastoralmente dos doentes em Viena. Era o meu grande desejo e pensei que esta fosse a minha vocação: servir os outros doentes como um sacerdote doente.
Mas então, como tantas vezes acontece na vida, as coisas correram de forma completamente diferente. A minha saúde deteriorou-se mais depressa do que o esperado e, basicamente, após a ordenação não exerci a pastoral nem sequer durante um ano, recolhendo-me cada vez mais por causa da saúde. Desde então, o meu papel como sacerdote resumiu-se à oração e à Santa Missa. Celebro-a exclusivamente «em privado» aqui na capela da minha casa; é impossível fazê-lo de outra maneira e não consigo imaginá-lo de outro modo. Celebrei a minha Primeira Missa na Catedral de Santo Estêvão e senti-me completamente em casa. Porém, nada me falta. Graças a Deus. Torna tudo muito mais simples.
Por mero acaso, em condições de isolamento, comecei a escrever para a «kath.net» e, depois, para outros órgãos, e gostei especialmente de escrever ensaios sobre ópera e literatura para a secção de «feuilleton» do «Tagespost». O meu tributo à grande Maria Callas foi provavelmente o texto mais lapidar que alguma vez realizei.
Contudo, os temas relativos à Igreja mantiveram-se os mais solicitados, sobretudo durante a crise que atravessamos na Igreja.
Sem qualquer esforço da minha parte, dei subitamente por mim com um vasto público leitor em muitas línguas, e os meus escritos ressoaram profundamente em muitos deles. Pelo menos, foi o que as muitas reações que recebi revelaram esmagadoramente. Escrever tornou-se — se quisermos — a minha forma de pastoral e de pregação, mas continua a ser uma atividade solitária; quem quer que trabalhe sobre uma secretária o sabe. Não posso dizer que invista todo o meu coração nela, contudo, fá-lo-ei porque creio que, presentemente, é aquilo que Deus espera de mim.
O conflito com a autoridade ordinária
As suas publicações acabaram por trazer-lhe um conflito com o seu arcebispo. Como reagiu inicialmente a estes textos? O seu arcebispo está no cargo há pouco tempo. Como era a situação anteriormente?
Segundo as nossas informações, foi-lhe imposto um explícito interdito de escrita. O que lhe foi exactamente proibido? Que motivação foi apresentada?
Que consequências lhe foram ameaçadas caso continuasse a publicar?
Como se pode imaginar uma conversa destas no âmbito eclesiástico? As suas argumentações foram seriamente ouvidas? Falou-se consigo — para usar um termo hoje em voga — de forma «sinodal»?
Posso apenas falar bem do Cardeal Schönborn, que me ordenou sacerdote e a quem devo imensíssimo. Tanto quanto sei, leu tudo o que escrevi. Embora nem sempre concordasse com tudo quanto dizia, a nossa troca de impressões foi sempre amigável, correta e profundamente humana, nunca pautada por um tom autoritário. Pelo contrário, o Cardeal tem a rara qualidade de expressar críticas de modo tão amável que se acolhem de bom grado e até se aprende algo com elas. Admiro-o imenso, tive o privilégio de estar próximo dele durante muito tempo e sinto-lhe um enorme respeito. Possui o que se chama de «nobreza de alma», um dom raro, muito mais do que o seu título de conde. Graças à sua generosidade, devo a maior graça da minha vida: o sacerdócio.
Quanto ao Arcebispo Grünwald, nunca o conheci pessoalmente; enviou-me algumas cartas não muito amistosas, antes autoritárias, num tom um tanto antiquado.
Recentementerecebi outra carta dele, bastante dura, na qual me ordenou imposto um «interdito de publicação». Curiosamente, alternava entre o tratamento por «tu» e «vós» (formal), o que deixa transparecer uma certa insegurança, refletida também na linguagem. Escreveu que, caso não respeitasse o «interdito de publicação», haveria «sanções», que poderiam chegar até à «suspensão» da minha condição clerical.
Por favor: no meu caso, a situação é quase ridícula. Estou aposentado e há muito que não exerço qualquer cargo oficial. Além disso, nunca recebi ordenado ou algo semelhante da Igreja: era simplesmente um assistente pastoral voluntário da Catedral de Santo Estêvão, cargo que abandonei há muito. No entanto, parece que querem alvejar-me e usar-me como exemplo nas redes sociais por causa da minha presença mediática. Ninguém o pode impedir. Mas não é nada que leve muito a sério ou que me preocupe particularmente. Não diz nada sobre mim, mas muito sobre a Igreja hodierna e sobre o Arcebispo Grünwald, que assim se ridiculariza.
Escrevi-lhe que, presentemente, é bastante comum impor «interditos» àqueles que professam a fé católica, enquanto os críticos do celibato e os hereges ficam livres de quaisquer consequências e se podem exprimir como melhor lhes apetece. Esta é a tendência dos nossos tempos, e os bispos acolhem-na de bom grado. Uma tragédia.
Nunca houve qualquer conversa entre mim e Grünwald, nem qualquer discussão substantiva. Não sei que textos meus foram criticados e o arcebispo, por sua vez, não conseguiu demonstrar se os textos em questão tinham sido por mim autorizados ou falsificados.
Em resumo: a sanção do arcebispo não tem qualquer fundamento sólido e, por isso, seria juridicamente inválida. Não obstante, impõe arbitrariamente um «interdito de publicação», como se tivesse poder absoluto para isso. É ou uma forma de excessiva arrogância ou, pior ainda, o típico modo como um bispo trata um dos seus sacerdotes — algo que se observa por todo o lado, longe de qualquer suposto «sinodalismo» e de toda a boa educação. Em Munique, estas práticas sempre foram comuns; os meus confrades sacerdotes, que sofreram com elas durante longo tempo, não se cansam de mo relatar.
Neste fenómeno típico, descreveria o comportamento de Grünwald para comigo como «de cima para baixo»; parece-me quase uma caricatura de uma época passada: um «príncipe-bispo» que emana decretos e decide à sua vontade sobre questões que dizem respeito aos seus subordinados. A fachada mediática que mantém, naturalmente, é bem diferente: «sinodal» e, de algum modo, «franciscana», mas excessivamente ostensiva e transparente.
Algo assim teria sido absolutamente impensável sob o Cardeal Schönborn. A autenticidade de Schönborn era evidente: era um homem profundamente modesto e nobre, um cavalheiro de um tempo que passou.
No que diz respeito ao «interdito de publicação» imposto por Grünwald, toda esta situação apresenta um aspeto extremamente problemático pois constitui uma clara e patente violação dos direitos fundamentais.
Ninguém tem o direito de limitar a liberdade de expressão, nem sequer um arcebispo. Quem tente fazê-lo deve ser comparado com sistemas autoritários, desde o fascismo e o comunismo até aos dias de hoje na Rússia ou na China.
Quando Grünwald, como muitos bispos, gosta de fazer campanha publicitária por «a nossa democracia» (como se este fosse o principal dever de um bispo!), neste contexto não convence: quem age contra a liberdade de expressão porque, provavelmente, considera a Igreja um espaço sem lei em que um bispo pode fazer o que quer, não faz a mais pequena ideia do que seja a democracia.
É, pois, coerente que os «interditos de publicação» caiam «do céu» como atos arbitrários, não fazendo parte de um processo ordenado com base no Estado de direito. Não há a mínima aparência de princípios democráticos ou de qualquer tipo de princípio «sinodal»!
Em suma: quem limita os direitos fundamentais, em princípio, fica sempre e em qualquer lugar desqualificado, e isto também se aplica ao Arcebispo Grünwald. As suas ações contra mim condenam-no e, ao mesmo tempo, lançam luz sobre o contexto em que nos encontramos em Platia Santo Estêvão. Certamente que poderia dizer muito mais sobre o assunto, mas não é relevante para o tema de hoje.
Obediência e consciência
Cada sacerdote, no momento da ordenação, promete ao seu bispo respeito e obediência. Como gere esta promessa numa situação em que parece estar convicto, por motivos de consciência, de que não pode calar-se?
Encontra-se numa situação de conflito de consciência entre a obediência ao seu bispo e a sua responsabilidade para com a verdade, tal como a percebe?
Continuará a escrever apesar do interdito?
Há muito que pensava em despedir-me dos meus leitores. A minha saúde não melhora e, apenas por este motivo, mais cedo ou mais tarde terei, com certeza, de deixar de escrever. Aliás, foi exactamente o que disse ao arcebispo.
Quem me segue nas minhas publicações terá certamente notado que estas se tornaram menos frequentes. Não obstante, ainda tenho vários temas que gostaria de aprofundar. Doutra banda, o mesmo se aplica a qualquer escritor. Por exemplo, há muito desejo de escrever uma reflexão mais mística sobre a Santa Missa ou algo sobre o tema da «Medianeira de todas as Graças». Todavia, não me iludo quanto a ver tudo publicado. Espero sempre que outros se apresentem, sobretudo sacerdotes, e considero-me perfeitamente dispensável. Goethe certa vez declarou: «Não sei por que razão eu, um tolo, escrevo tanto», e, no fundo, penso da mesma forma; porém, não pretendo comparar-me ao Conselheiro-Secreto, que, afinal de contas, é um dos meus bons «conhecidos».
A obediência que cada sacerdote promete no momento da ordenação é devida única e exclusivamente a Cristo e à Igreja.
Sempre fui fiel a esta obediência e servi Cristo e a Igreja com os meus escritos da melhor forma possível.
Nunca escrevi nada que contradiga a fé da Igreja; pelo contrário, com os meus textos anunciei o Evangelho e preservei a fé tradicional, tal como prometi no momento da minha ordenação.
A promessa de obediência não está acima dos outros votos de consagração, nem os limita de forma alguma. Contudo, lamentavelmente, tornou-se comum para muitos — sobretudo nos meios mais tradicionalistas — interpretar erroneamente a obediência como obediência cega. Todavia, esta é uma distorção do verdadeiro significado da obediência.
Além disso, a obediência nunca é uma espécie de «contrapartida» dos direitos fundamentais; seria absurdo. Um bispo que hoje proíbe a liberdade de expressão, amanhã limitará ulteriormente os direitos fundamentais. Para onde iríamos se isto fosse permitido?! Cada vez que a obediência tenta violar os direitos individuais constitucionalmente garantidos, transforma-se em sectarismo e/ou numa forma do que comummente se designa «abuso espiritual».
Um outro exemplo ilustra bem a situação: há mais de um ano, o arcebispo Grünwald pediu-me que pagasse o imposto eclesiástico na Alemanha (!) «por obediência», o que me pareceu estranho. Todavia, embora não tenha insistido (o que, muito provavelmente, vai mudar agora), também este é altamente problemático: confundir uma solicitação pecuniária com obediência é absolutamente inaceitável, mas demonstra como a Igreja atua neste país: «Façam como lhes é dito!», «Paguem e obedeçam!» e, por fim: «Renunciem obedientemente aos vossos direitos fundamentais».
Lamento, mas certamente não comigo, e espero que com quem quer que possua ainda um pingo de bom senso. Tais monstruosidades já não têm lugar na nossa época e — graças a Deus — já não são aceitáveis para ninguém atualmente.
Consequências pessoais
Em caso de emergência, corre o risco de ser alvo de medidas canónicas que poderão ir até à suspensão? Esta perspetiva preocupa-o?
Como vive esta situação a nível pessoal — como sacerdote, mas também como pessoa?
Não sou do tipo que tem medo ou desiste facilmente e sempre admirei o Beato Padre Rupert Mayer, que costumava dizer: «Não permanecerei em silêncio!». Nenhum sacerdote deve calar-se, e muito menos sobre os abusos na Igreja hodierna, cuja autoridade magisterial autêntica está, em parte, suspensa. Não, sei que estou livre de qualquer temor pela minha integridade; ninguém me pode fazer mal. Sempre vivi livre de quaisquer dependências externas, e isto — naturalmente — apenas me provou mais; habituei-me a isso ao longo da vida.
Desde a minha juventude, fui fascinado pela figura de Maria da Encarnação no romance breve de Le Fort «A última no cadafalso», que, perante o Tribunal revolucionário, diz: «De que havemos nós de temer, se não do desagrado a Cristo, a quem vós solenemente reconheceis aqui como vosso juiz?!». Há muito que é o meu modelo pessoal, e é precisamente desta coragem que precisamos hoje numa Igreja que — até mesmo em plena revolução — se afasta cada vez mais daquilo que sempre ensinou e acreditou.
Marco Politi descreveu acertadamente esta situação como uma «guerra civil» na Igreja, e nesta guerra civil devemos professar a nossa fé tal como o fez Maria da Encarnação.
É exactamente o que farei e nunca abandonarei esta posição; caso contrário, desprezar-me-ia a mim mesmo. Um homem que não permanece leal às suas convicções é uma figura ridícula, e destes já temos mais que suficientes na Igreja.
As «punições» agora infligidas aos sacerdotes ortodoxos são arbitrárias e, mais cedo ou mais tarde, atingirão certamente cada um de nós que permanece fiel à «antiga» fé: «suspensão», «laicização», «excomunhão» — uma atrás da outra ou todas em conjunto; ninguém sabe ao certo.
Por detrás destas mesquinhas «punições» esconde-se, contudo, nada menos do que uma contestação do sacramento da Ordem sagrada: é-se sacerdote para sempre e nem sequer um papa poderia alterar isso, independentemente da «punição» que seja imposta a um sacerdote. Cristo permanece fiel a cada sacerdote e cada sacramento por ele administrado em nome de Deus é, portanto, válido sem exceção. Eis uma grande consolação e uma graça incomensurável.
Neste contexto, as ações punitivas contra os sacerdotes ortodoxos tornaram-se uma farsa e já não as levo a sério. Em última análise, são um sinal distintivo para aqueles que permanecem fiéis à Igreja. A minha família, no entanto, já recebeu esta honra das mãos do imperador Carlos VI e não pretendo desdenhá-la, ficando simplesmente em silêncio. Cristo é o meu juiz, ninguém mais.
A atual evolução da Igreja
É um dos críticos mais autorizados da atual evolução da Igreja. Qual é, presentemente, a sua maior preocupação?
O que entende por aquilo que se designa por «Igreja sinodal»? Na sua opinião, este caminho representa um renascimento ou uma ameaça à identidade católica?
Ninguém sabe realmente o que é o «sinodalismo». É uma dúbia fantasia do Papa Francisco, que, infelizmente, não morreu com ele.
Na realidade, a Igreja não utiliza este termo. Além disso, pela sua própria natureza, a Igreja não é «sinodal», mas católica e apostólica. Quem afirma o contrário não é católico, nem sequer um bispo ou um papa.
Por detrás da palavra de código «sinodal» não se esconde outra coisa senão a tentativa, facilmente identificável, de introduzir heresias protestantes na Igreja e apresentá-las como «católicas».
Como sucede em todas as revoluções, tornou-se prática comum doutrinar com veemência e dureza as pessoas para ideologias infundadas, e ai de quem resistir à pressão e se recusar a professar a sua lealdade à ideologia da «Igreja sinodal».
Em última análise, Francisco e os seus seguidores provavelmente copiaram este método dos ditadores do século XX, mas certamente não de Jesus Cristo.
Isto condiz com a mentira de uma Igreja que se define como «de escuta», aberta a todos e onde todos podem exprimir-se livremente. Que isto não seja verdade é demonstrado claramente pelo meu caso: quem quer que — como eu — se mantenha fiel à fé católica tradicional é oprimido e silenciado. ISTO é o «sinodalismo» tal como é hoje entendido na Igreja! — Muito bem, parabéns!
Em resumo, a «Igreja sinodal» é o legado de um pontificado desastroso, e parece que Leão XIV levará este desastre a cabo, ostentando demasiado claramente a marca do inimigo.
Mas tenho a certeza: cometeram um erro de cálculo. O verdadeiro dono da Igreja não é o Papa. A maioria dos católicos, contudo, parece tê-lo esquecido e está a ceder a um hiper-papalismo fanático, contra o qual não posso senão alertar e que nunca foi verdadeiramente católico.
Tradição e liturgia
Que significado tem para si a Missa tradicional? Em que consiste o seu valor espiritual particular?
O debate sobre a liturgia é, na realidade, a expressão de um conflito muito mais profundo sobre a identidade da Igreja?
Só descobri a Missa tradicional durante a minha oposição ao documento «Traditiones custodes» do Papa Francisco, e de imediato captei a sua riqueza.
Certamente, a chamada «nova Missa» é válida, mas, como sabemos pelo menos a partir do «Intervenção de Ottaviani», apresenta lacunas consideráveis.
A Missa tradicional, por seu lado, reflete plenamente a fé católica; espelha a essência da Igreja na sua forma mais pura e sublime.
Lamentavelmente, esta conceção da Igreja já não é a que é hoje almejada em Roma. A Missa tradicional tornou-se, pois, um ponto de referência para a ortodoxia e um sinal da fratura que, há muito, atravessa a Igreja.
É verdade: ambos os ritos representam visões completamente distintas da Igreja e são incompatíveis na sua oposição. Este é o problema fundamental que a Igreja enfrenta e que continua a tentar ignorar.
Ignorar a Missa tradicional ou declará-la um «rito extraordinário» não serve para nada; é a Missa da Igreja Católica e a Missa de Paulo VI nunca poderá sê-lo devido às suas lacunas.
A Sociedade Sacerdotal de São Pio X (FSSPX).
Como avalia, presentemente, a Sociedade Sacerdotal de São Pio X (FSSPX)?
Como avalia as ordenações episcopais que recentemente foram celebradas dentro da Sociedade Sacerdotal de São Pio X?
Por que motivo, segundo o seu entendimento, a Santa Sé age há décadas de forma tão decidida contra a Sociedade Sacerdotal de São Pio X?
Conheço pessoalmente apenas um sacerdote da Sociedade Sacerdotal de São Pio X; no resto, não mantenho qualquer contacto pessoal. Como celebro a Santa Missa por mim mesmo, tive apenas ocasionalmente oportunidade de participar numa Missa da Sociedade Sacerdotal de São Pio X.
No concerne às ordenações episcopais: fiquei simplesmente radiante ao ver serem ordenados novos bispos. Tenho mesmo de o dizer. Finalmente, homens relativamente jovens que abraçam plenamente a fé da Igreja e que, antes da ordenação, não tinham já atraído atenções com declarações que questionassem a fé católica.
Contudo, entre os bispos nomeados por Francisco ou Leão, uma certa «heresia fundamental» tornou-se a norma, incluindo uma posição negativa em relação ao celibato, etc. Isto é realmente difícil de suportar.
A crise da Igreja manifesta-se agora também na nomeação de bispos e estes quatro bispos representaram, enfim, uma mudança bem-vinda.
O sermão proferido pelo Monsenhor Schreiber no dia seguinte à sua ordenação foi uma expressão de profunda piedade. Isto tocou-me realmente.
O que também me impressionou foi a atitude com que a Sociedade enfrentou todas as acusações hostis e profundamente anticristãs — inclusive as provenientes de Roma — com um espírito de profunda devoção e inabalável confiança em Deus. Nunca tinha visto antes uma atitude exemplar semelhante na Igreja e devo confessar: eu próprio, infelizmente, não a possuo.
O mecanismo romano da «excomunhão», por seu turno, pertence à Idade Média mais sombria e não ao nosso tempo; hoje já não é aceite por ninguém e, apesar do seu modernismo e da sua atitude acomodatícia para com o mundo, isto não foi devidamente tido em conta. A Igreja ficou para trás em relação aos tempos de modo errado e, depois, admira-se de que quase ninguém a compreenda já.
Sem dúvida, Roma poderia ter demonstrado mais magnanimidade e generosidade para com a Sociedade Sacerdotal de São Pio X. Teria sido um gesto nobre e apropriado, digno do Papa.
Mas dentro existem demasiadas pessoas medíocres, como o cardeal Fernández ou o caroinal Roche, inimigos declarados da tradição católica e de mentalidade muito estreita. Não querem a reconciliação com a Sociedade Sacerdotal de São Pio X nem com quem quer que seja que partilhe a fé tradicional. Pelo contrário, quiseram deliberadamente provocar aquilo que agora afirmam: um alegado «cisma». Mais cedo ou mais tarde, isto teria acontecido na mesma, não por vontade da Sociedade Sacerdotal de São Pio X, mas unicamente por vontade das autoridades romanas.
Pessoalmente, rejeito o termo «cisma», pois as ordenações episcopais ilícitas não são razão suficiente para tal afirmação. A Igreja, aliás, sustentou sempre esta posição até ao pontificado de Pio XII; o Monsenhor Athanasius Schneider escreveu recentemente um excelente ensaio sobre este tema.
Pelo contrário, todos os cismas evidentes que nos rodeiam são hoje convenientemente ignorados, como, por exemplo, o cisma entre os bispos da Alemanha. Naturalmente, de lá fluem avultadas somas de dinheiro para Roma e este é, certamente, um dos principais motivos pelos quais preferem fechar os olhos.
Além disso, o Vaticano concorda tacitamente com a apostasia e a heresia dos alemães; em outras palavras, «cisma» não é simplesmente «cisma», e esta é apenas uma das muitas contradições que tornam a Igreja completamente inconfiável.
A luta de Roma contra a Sociedade Sacerdotal de São Pio X é, em última análise, óbvia, apenas uma «guerra por procuração».
O que a Igreja se recusa perentoriamente a tolerar é a fé católica tradicional, que idealmente gostaria de reclusa numa reserva. Em seu lugar, tenciona estabelecer uma nova fé e uma nova Igreja, começando pelo Concílio Vaticano II. Tudo aquilo que antes era considerado católico já não conta.
Se observarmos, por exemplo, aquilo que Roma exige àqueles que querem afastar-se da Sociedade Sacerdotal de São Pio X (suspeito que não serão muitos), tornará isto muito claro: o Concílio Vaticano II foi tão inflado que se tornou quase um «superdogma» ao qual todos devem aderir, e quem se recusa é simplesmente excluído.
Todos os outros concílios, contudo, já não contam, e aquilo que sempre foi católico é simplesmente descartado «teologicamente»: diz-se às pessoas que não houve qualquer rutura após O Concílio, mas antes uma alegada «continuidade», mas quem quer que una os pontos compreende que isto é uma mentira: não se pode hoje declarar o oposto do que se apresentou ontem como uma verdade revelada e afirmar que as coisas «evoluíram» de maneira diferente. Quem é tão tolo para acreditar nisto? E quem pode ainda convencer as pessoas com uma afirmação como esta?
A Igreja afastou-se da sua Tradição e, por conseguinte, de si mesma. Se esta situação persistir, mais tarde ou mais cedo — segundo toda a lógica humana — acabará por perecer. A Sociedade Sacerdotal de São Pio X, pelo contrário, preserva a fé católica, e isto é algo positivo.
Uma pergunta pessoal: confessar-se-ia com um sacerdote da Sociedade Sacerdotal de São Pio X? Porquê?
Em geral, aconselharia todo o católico a confessar-se frequentemente, e eu próprio fá-lo-ei. Idealmente, devia-se confessar semanalmente. Sou sempre grato quando tenho oportunidade de me confessar e aproveito-a sempre que possível.
A confissão, no entanto, é uma questão demasiado sagrada para ser instrumentalizada para fins políticos eclesiásticos, algo que, infelizmente, está a acontecer presentemente.
Naturalmente, cada um é livre de escolher o seu confessor — e isto aplica-se também aos sacerdotes da Sociedade Sacerdotal de São Pio X. Quem desejar confessar-se aí fá-lo-á. Ninguém será tratado com condescendência. Eu próprio nunca me confessei com a Sociedade Sacerdotal de São Pio X; simplesmente, a ocasião nunca se proporcionou.
A afirmação de que as confissões administradas pela Sociedade Sacerdotal de São Pio X não são válidas é um absurdo total. Embora seja verdade que um sacerdote necessite da permissão do bispo para ouvir confissões, esta é apenas uma questão canónica que não afeta nem a autoridade sacramental do sacerdote nem a validade da confissão em si.
Uma confissão válida dentro da Sociedade Sacerdotal de São Pio X é sempre possível em qualquer circunstância. Quem negar isto, em última análise, nega a natureza sacramental da ordem sacerdotal, bem como a da confissão.
Claro que sei que o Vaticano sustenta o contrário, mas: nem sequer o Papa pode declarar a validade dos sacramentos com um traço de caneta! Esta autoridade pertence unicamente a Deus, e temos todo o direito de insistir neste ponto perante o Papa.
Um olhar para o futuro
Apesar da situação atual, está já a trabalhar noutras publicações ou projetos?
Como se imagina o seu futuro sacerdotal?
Por fim: que mensagem gostaria de transmitir aos católicos que, perante os atuais desenvolvimentos na Igreja, se sentem desorientados?
Não tenho desejos nem ideia do que o futuro me reserva. Os doentes, por vezes, veem as coisas com mais serenidade ou a partir de uma perspetiva mais elevada, algo que também consigo fazer razoavelmente bem por vezes.
Seja o que acontecer, continuarei a celebrar a Santa Missa sozinho e apenas na presença da corte celeste aqui na capela doméstica, e a servir como sacerdote àqueles que mo pedirem. Certamente, agora são poucos, mas não é isto o ponto. Deixei o meu «Adsum» a Deus e Ele conferiu-me o selo indelével do sacerdócio. E assim permanecerá. Não sou o dono do meu caminho sacerdotal. Isto pertence apenas a Deus, e aquilo que Ele tem reservado para mim será, sempre, o melhor.
Que eu continue a escrever não constitui, em princípio, para mim um questionamento. Devo-o a Deus e à Igreja. — Para citar, uma vez mais, o Padre Mayer: «Não permanecerei em silêncio», e ninguém me fará calar. Todavia, é mais que provável que as minhas condições de saúde me obriguem a cessar as publicações, e assim seja.
Gostaria de agradecer a todos aqueles que apreciam a minha pessoa e os meus escritos.
Peço-vos que permaneçais firmes na fé e fiéis à Igreja, mesmo que hoje nem sempre seja fácil. Maria, Medianeira de todas as Graças, há-de ajudar-vos se vos confiares a Ela. Eu próprio tenho tido esta experiência repetidas vezes.
A todos os doentes, gostaria de dizer como um deles: suportemos da melhor forma aquilo que nos é imposto, com Cristo na cruz. Ele nunca nos abandonará e a Bem-Aventurada Virgem Maria estará sempre connosco.
Deus vos abençoe +
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As diferentes variantes ortográficas próprias dos nomes de família foram frequentes em todos os estratos sociais até muito para lá do século XIX; apenas gradualmente se impôs uma normalização de sobrenomes e da ortografia. O sobrenome originário «Heymerle» manteve-se até aos dias de hoje num ramo da família; o sobrenome «Heimerl», já mais correntemente utilizado no século XVIII, substituiu por fim o sobrenome originário no outro ramo.
Em 1969, os cardeais Alfredo Ottaviani e António Bacci, com o apoio de um grupo de teólogos, publicaram um escrito crítico acerca da liturgia que acabara de ser introduzida pelo Papa Paulo VI. O título completo é: «Brevis explicatio critica Novi Ordinis Missae» («Breve explicação crítica do Novo Ordo Missae»). Nela defendem que o novo número da Missa apresenta uma série de problemas teológicos, designadamente no que diz respeito à representação do sacrifício eucarístico, ao papel do sacerdote, ao caráter sacrificial da Eucaristia, à ênfase no banquete comunitário em detrimento da dimensão sacrificial e à continuidade com a liturgia romana tradicional.