Certamente a Escritura condena o orgulho, a injustiça e o abandono dos pobres. Os profetas deixam isso abundantemente claro. Mas a Sagrada Escritura apresenta também, de modo inequívoco, Sodoma como uma cidade que rejeitou o plano de Deus para a sexualidade humana e abraçou a grave imoralidade sexual.

Durante dois mil anos, a Igreja compreendeu esta lição. A palavra « sodomia » provém da cidade de Sodoma e da narrativa do Livro do Génesis. Na história, dois anjos visitam Lot, que se encontrava em Sodoma, e quando os homens rodeiam a casa de Lot e exigem que lhes entregue os visitantes do sexo masculino, torna-se evidente que pretendiam violá-los sexualmente. Por isso, Deus destrói Sodoma e a cidade vizinha de Gomorra com fogo e enxofre.

Por que razão, então, há hoje tanta hesitação em dizê-lo?

Por que razão tantos na Igreja, até nos mais altos cargos, recusam-se a nomear este pecado, revestindo-o antes com palavras como « hospitalidade »? E por que razão a Igreja, hoje em dia, evita sobretudo falar claramente sobre os actos homossexuais? A Igreja nunca ensinou que a lei moral de Deus muda com a cultura. Ela tem proclamado de modo consistente que o matrimónio é a união sagrada entre um homem e uma mulher e que toda a forma de actividade sexual fora desta aliança é contrária ao plano de Deus. Estas doutrinas não nos pertencem para as reescrevermos. Pertencem a Cristo. No entanto, hoje vemos crescer a confusão dentro da própria Igreja. Vemos vozes na Igreja que cada vez mais se associam à defesa da agenda LGBTQ. Ouvimos vozes que parecem falar com incerteza onde a Igreja sempre falou com clareza.

Estas preocupações não podem ser simplesmente ignoradas. Os pastores têm o dever sagrado de ensinar com clareza. Os fiéis têm o direito de ouvir o Evangelho na sua totalidade — não um Evangelho remodelado segundo as preferências da cultura, mas o Evangelho transmitido por Cristo através da Sua Igreja. Não se trata de apontar para um grupo particular de pecadores. Cada um de nós deve apresentar-se diante da Cruz e reconhecer os seus próprios pecados: orgulho, avareza, luxúria, adultério, pornografia, contracepção, fornicação, actos homossexuais. Todo o pecado grave nos separa de Deus se, sabendo-o e deliberadamente, o abraçarmos sem arrependimento. A Igreja não nomeia estes pecados porque odeia os pecadores. Nomeia-os porque ama as almas. Se um médico se recusasse a nomear uma doença mortal por receio de ofender o paciente, chamaríamos a isso negligência, não compaixão.

A Igreja é chamada a algo muito maior: é chamada a anunciar a verdade com amor, mesmo quando essa verdade é difícil de ouvir. O que torna este momento especialmente alarmante é que grande parte da confusão já não vem apenas da cultura — agora vem também do interior da própria Igreja. Em vez de ouvirmos uma proclamação clara do ensinamento perene da Igreja sobre o matrimónio e a moral sexual, deparamo-nos com mensagens e acções que parecem sugerir algo muito diferente.

Por exemplo, temos agora um documento que permite certas bênçãos a casais em situações irregulares, incluindo « casais » do mesmo sexo. Houve Missas e ministérios associados a pessoas que se identificam como « LGBTQ », criando confusão em vez de clareza. Vozes proeminentes dentro da Igreja têm incentivado novas abordagens pastorais que turvam a distinção entre acolher toda a pessoa e afirmar condutas que a Igreja sempre ensinou como contrárias ao plano de Deus.

Estes desenvolvimentos deixaram muitos católicos a fazer uma pergunta dolorosa: terá a Igreja mudado o seu ensinamento? A resposta deve ser não. A Igreja não tem autoridade para mudar aquilo que Deus revelou. A verdade divina não evolui com a opinião pública. « Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre » (Heb 13, 8). Aquilo que a Igreja sempre ensinou sobre o matrimónio e a moral sexual mantém-se verdadeiro hoje porque não provém de opiniões humanas mutáveis, mas da sabedoria imutável de Deus.

É por isso que a clareza é tão importante. Quando as almas estão em jogo, a ambiguidade não é um acto de caridade. As pessoas merecem ouvir a verdade na sua totalidade, porque só a verdade nos liberta. Cada um de nós é chamado à conversão. Cada um de nós é chamado à santidade. E cada um de nós precisa tanto da misericórdia de Cristo como da coragem para nos afastarmos de tudo aquilo que nos separa d’Ele.

O que torna este momento tão perturbador é que esta confusão surgiu precisamente quando os fiéis católicos assistiram a uma tendência, por parte da hierarquia da Igreja, de se afastar das próprias tradições da Igreja. Há já algum tempo que os católicos ligados à liturgia tradicional, devoções e ensinamentos perenes da Igreja têm vindo a assistir ao aumento de restrições impostas à Missa Tradicional em Latim. Têm testemunhado repetidos apelos para abraçar uma nova visão eclesial, uma Igreja sinodal, que levou aqueles que simplesmente desejam preservar aquilo em que gerações de católicos acreditaram e praticaram a serem vistos com suspeição. Muitos fiéis católicos perguntam-se por que razão tanta energia é dedicada a limitar as expressões tradicionais da fé, enquanto tanta confusão rodeia os ensinamentos morais fundamentais e parece não ser corrigida.

É por isso que tudo isto é tão alarmante. Num momento em que a nossa cultura precisa desesperadamente de uma proclamação inequívoca do plano de Deus para o matrimónio, a família e a moral sexual, os fiéis só vêem incerteza onde anseiam por convicção e ambiguidade onde anseiam pela verdade.

Acabei de regressar de Quito, no Equador, e a visão das mensagens de Nossa Senhora do Bom Sucesso recordou-me aquilo que Ela disse nessas mensagens.

Falando à Madre Mariana há séculos atrás, Nossa Senhora advertiu para uma época que começaria nos nossos dias, em que a fé se tornaria fraca, a confusão entraria na Igreja e a impureza grassaria. Falou de um tempo em que muitas almas estariam em perigo porque o erro se tornaria generalizado e a coragem escassearia.

No entanto, a Sua foi uma mensagem de esperança. Prometeu que, quando as trevas parecessem mais profundas, haveria um renascimento. Não por se abandonar a fé uma vez entregue aos santos, mas por se regressar a ela com maior fervor, maior pureza e maior confiança na graça de Deus.

Mas a Igreja nunca se renova tornando-se mais parecida com o mundo. Cada grande renovação na sua história resultou de um regresso a Cristo, de um regresso à santidade e de um regresso à plenitude da fé transmitida pelos apóstolos. Se este for verdadeiramente o derradeiro combate sobre o matrimónio e a família, então agora não é o momento de suavizar o Evangelho. É o momento de o proclamar com maior clareza e fidelidade do que nunca. E, no entanto, vemos Roma, em muitos casos, agir contra aqueles que se apegam à Sagrada Tradição, enquanto deixa intocados aqueles que proclamam uma visão do mundo totalmente incompatível com a Tradição Sagrada da Igreja.

Não se trata simplesmente de uma questão de liturgia ou de estilo pastoral. Trata-se de saber se a Igreja continuará a proclamar, sem hesitação ou desculpa, as verdades que Cristo lhe confiou. Cada época tem a sua batalha definidora. Se a Bem-Aventurada Mãe avisou que a batalha final seria sobre o matrimónio e a família, então certamente este não é o momento para a incerteza. É o momento da coragem.

O mundo não precisa de uma Igreja que ecoe as suas próprias opiniões. O mundo precisa de uma Igreja disposta a proclamar a verdade que liberta as almas. Precisa de pastores que amem o seu povo o suficiente para anunciarem a verdade, mesmo quando esta é difícil, mesmo quando é impopular, mesmo quando exige conversão.